Em abril deste 2018 vivi minha segunda residência artística numa
experiência completamente diferente da primeira, que foi numa galeria de Paris
em 2017. Tão importante quanto em seus diferentes aspectos, não só geográficos,
mas de estrutura física como um todo e também em termos de experiência humana.
Lá na França foi uma imersão solitária, quase sem ninguém o tempo todo, sem
saber me comunicar direito, onde acabei me voltando pra mim mesmo e meu
processo, absorvendo o que chegava aos meus sentidos em termos de imagem, som,
cheiro, etc...
Já com os Almofadinhas no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea a
história foi outra. É o coletivo. Pois ali já tínhamos a missão de produzir um
trabalho a três mãos. Não uma única obra, mas a ideia da residência e a
exposição. E logo do inicio já nos deparamos com o fato de que essa produção
seria com mais cabeças, mãos, pernas e corações. Conhecemos muitas pessoas que
produziram conosco. Já tínhamos um
quarto “Almofadinha” desde a exposição de BH em 2017, o curador Ricardo
Resende. Ganhamos agora uma Almofadinha, Diana Kolker. Porque não uma mulher?
Afinal discutimos gênero também em nossas atividades. Aliás, desde o início. Um
olhar mais feminino é importante quando nossas masculinidades tendem a querer
gritar. Uma nova energia pra equilibrar.
Conhecemos e vivemos com pessoas incríveis, funcionários e usuários do
Pólo Experimental e onde ficava a Residência CASA B. Um lugar cheio de
potencialidades com o Ateliê Gaia e seus artistas únicos: Arlindo, Patricia
Ruth, Clóvis, Swaizer (Sebastião), dentre outros e os professores das oficinas
de arte que ali acontecem, Claudia do Bordado e Costura, Walter do Mosaico,
Leandro da Música. Não podendo esquecer de Erô, um pouco gerente do lugar e
Fabiana da limpeza. Luizinho, nosso
primeiro anfitrião e guardião. E muitos outros que me fogem o nome, mas não as
carinhas. Neste lugar dormimos, acordamos, comemos e convivemos, mesmo que
pouco tempo, mas o suficiente pra saber que no meio de tantas intensidades,
diversidades e adversidades, o afeto imperou.
Tanto pra resolver em pouco tempo, das logísticas da exposição,
imersão no acervo do Bispo, produzir um trabalho coletivo com o pessoal da
oficina de Bordado e ainda produzir alguma coisa que amarrasse isso tudo.
Loucura! Ops...não sei se posso usar essa palavra. Mas de certa forma a
“loucura” pode ser algo bom ali. A arte é para os loucos. Ao mesmo tempo em que
a arte nos torna sãos. Pude ver isso ali, o poder afetivo da arte. Esperto foi
o Bispo que se refugiou por quase 50 anos para produzir arte, mesmo não tendo
este nome para ele. Arte no sentido de se dedicar a uma experiência interna,
sua missão mística. Enquanto nós artistas livres e normais estamos presos na
bolha do “temos que fazer sucesso, vender e sobreviver.”
Então... o Bispo. Ele, parte importantíssima dessa experiência. Como
nos relacionarmos com ele, sua história, sua obra? Aqui adentro ao meu processo
particular da minha então produção como parte processual dessa vivência. Depois
de um dia cheio das atividades já citadas o que nos restava quando o Pólo
estava vazio a noite e sem sinal de internet e telefone era trabalhar mais.
Chegada a hora de produzir, por a mão na massa, cortar, recortar, costurar,
bordar, colar, juntar... E pela primeira vez os Almofadinhas produzem num mesmo
espaço, no improviso de um ateliê em um dos quartos para a residência. Fomos
processando juntos o que cada um ia fazendo, ao som de músicas e papos de arte,
risadas e conversas aleatórias até tarde da noite.
Meu inventário
Chego nessa curta residência já munido de alguma ideia pré concebida. Claro
que as coisas sempre mudam. Residências parecem ser imprevisíveis e esta então,
mais ainda. Já conhecendo um pouco e
admirando o trabalho do Bispo, tendo a oportunidade de ter visto boa parte de
suas obras algumas vezes, me concentrei em alguns aspectos de seu processo e
objetivo. Inventariar. Eu não teria todo o tempo do mundo que ele teve para
colecionar coisas e nomes. Mas procurei pensar qual é o inventário do meu
processo.
Carreguei comigo uma pasta cheia de imagens de revista das que por
muito tempo colecionei sempre com o intuito de usá-las dentro do meu trabalho. Nessas
imagens, modelos em ensaios de moda. A moda que na maior parte das vezes se
mune da sensualidade para vender seus produtos e conceitos. Dentro da ideia de
sensualidade vem junto a beleza e essa padronização estética provocada pelo
mesmo meio. O que dentro da história vem desde o modelo clássico grego, se
perpetuando em outros momentos da representação humana. Essas imagens sempre serviram de base para os
desenhos e bordados que executei e até mesmo me apropriando das mesmas em
trabalhos de colagem. Com elas sempre acabo explorando questões em torno de
sexualidade e afetividade, além da própria relação corpo e conteúdo.
Nos últimos tempos tenho me debruçado também numa ligação mais direta
com a moda, experimentando o ofício de customizar roupas com meus bordados.
Metamorfosear. E o projeto dessa residência acontecia em paralelo, assim eu só
conseguia me debruçar nas vestes do Bispo, o que ele bordou ou inventariou em
roupas. Sempre fascinado pela sua principal obra, o ‘Manto da Apresentação”, o
que me propus era pensar em vestes que se ligariam com ele. Pretensioso, eu
sei! Algo construído por toda sua existência e para além dela. Com ele deveria
ter encontrado Deus. E qualquer coisa que eu fizesse em cima disso nunca traria
e nunca trará a mesma energia, pois eu mesmo não penso em encontrar com Deus. O
que me interessa nisso é todo esse simbolismo místico aliado a questão de se
vestir para uma ocasião tão solene. O nosso corpo não bastaria pra isso?
Dentro de uma catarse noturna de produção cortei tecidos em formatos
de manto. Tecidos translúcidos e estrelados que foram sobrepostos em camadas
onde comecei a construir alguma história que nos unisse: eu, Bispo, as pessoas
ao meu redor e toda aquela vivência. Sendo contaminado pela produção dos
colegas, recortando as figuras de papel, costurando-as e colando-as nessas
vestes. Bordando algumas imagens e dizeres. As imagens diziam sobre afetos,
sexualidade, roupas e gênero, religiosidades. E sobre minhas memórias também
introduzi fragmentos da minha existência, de quando vim para este mundo. Qual
teria sido a missão que Deus teria me dado nesta ocasião? Não me lembro. Nisso
Bispo era bastante lúcido. Sobre as vestes o trabalho ganhou um misto de
relicários e escapulários, extremamente frágeis em suas colagens e costuras.
Bordei essas fragilidades em dizeres bem pontuais sobre alguns sentimentos e
sensações além de referências a algumas pessoas por quem ali me apaixonei. Os “bispos”
que ali convivem. Destes dizeres escolhi dois para os títulos das duas obras:
“A primeira estrela da manhã” e “ Ele quis nos fazer chorar”. Agora era pensar
como elas aconteceriam na exposição.
A montagem
Assim como a produção, pensar a montagem dessa “Experiência B” se
mostrou orgânica começando já na imersão no acervo do Bispo. Cada um de nós
descobrindo ou redescobrindo peças escondidas na reserva técnica, montando em
nossas próprias cabeças conexões estéticas, poéticas e afetivas. Foi um
exercício e tanto de construir possíveis leituras e de deixar o que a obra do
Bispo pedisse de nós. Nem tudo
aconteceria, nem com nossas obras e nem com as dele. É preciso maturidade
artística num momento desses, e não é uma tarefa fácil. Houve momentos que foi
preciso cortar. A casa foi um norte para pensar um possível percurso. Mas ele
não é totalmente fechado podendo ter várias leituras e aqui me concentro nas
minhas obras que fazem parte da exposição.
Enxergo pelo aspecto da intimidade, aliado às vestes e ao corpo, além
da dor e do mítico. A cama do Bispo (Romeu e Julieta) foi nossa grande estrela
propondo elos de comunicação. Das casinhas e caminhas do Rick Rodrigues,
adentramos ao meu quarto de vestir, onde estariam em primeiro plano os mantos
que produzi na residência, “voando” no espaço. Na visão da curadora Diana
Kolker também se mostravam como vestes
de fadas. Também fiz flutuar minha
camisa “Enquanto desenho na sua superfície”; parte de uma obra mutável,
instalação e/ou performance realizada desde 2014. Aqui ela interage com uma
arara de roupas do Bispo. É como se ela e os mantinhos quisessem adentrar
naquela arara. Como parte deste “closet” também estavam duas vitrines do
Bispo; uma de meias e outra de toalhas, também adentrando no campo da
intimidade. Para estes resgatei um trabalho antigo, de recém graduado em Artes.
“Segundo Lucas” é um conjunto de tecidos brancos recortados em formato de cueca.
Algumas com feridas suturadas em vão, pinturas em vermelho e costuras de linha
preta. Outras têm indicações de versículos bíblicos bordados do evangelho de
São Lucas, padroeiro dos pintores, médicos e curandeiros. Aqui as dispus também como uma vitrine, um
mostruário da dor e de uma possível cura, resgatando assim questões um tanto adormecidas
em meu trabalho.
Dentro de uma edição não linear dessa descrição da montagem, volto
agora ao início do percurso dessa exposição para abrir parênteses. É o momento em
que a exposição representa o lado externo, ainda sem adentrar na casa. Uma
espécie de quintal ou jardim formado por obras de nós quatro em flores,
mariposas, galhos e balanços. E fazendo
a ponte com o meu quarto de vestir e o interno eu apresento ali um homem nu,
mas vestido de insetos, bordados ou tatuados. E um pássaro que está prestes a devorar um
gafanhoto. A obra se chama “O Banquete”.
Fechado o parênteses, retorno ao ponto da dor e do religioso,
provocado na obra “Segundo Lucas”, resgatando outro trabalho da mesma época: “Todo
mundo pode ser santo: a mulher”. Uma espécie de estandarte ou véu com uma figura
feminina ferida e coroada. Uma rainha, uma divindade, uma entidade, uma santa,
uma travesti. Ela vai parar num espaço mais reservado da exposição. Nossa
capela e templo, o lugar de falar com os deuses. Lado a lado com a vitrine da
macumba de Bispo, bordada e pintada em vermelho e preto sobre um alvo tecido,
ela traz sua energia feminina e sofrida, mostrando que é guerreira. Também no espaço um dos meus Alfineteiros, um
boneco de coroa, um vudu que pede “Reine em mim”. Escadas que levam ao céu,
enquanto a chuva cai proporcionada por Rick Rodrigues. Temos aqui duas direções.
O São Jorge de Fábio Carvalho que nos faz retornar ao seu arsenal até o seu casaco militar condecorado e florido
e que também quer fazer parte da arara de Bispo; ou o meu pequeno estandarte
marinho “Mergulho em ti” que nos convida a seguir adiante em águas mais
profundas, através das figuras de sereias e sereios bordados por mim também no
trabalho “A Odisséia”, uma grande colcha ou cortina, em que bordo no meio de seres marinhos uma citação de
Rimbaud de sua temporada no inferno em que achava a beleza amarga. Neste grande
mar trazemos a referência ao universo “navy” presentes na obra do Bispo de suas
memórias de marinheiro. Dali segue os
marinheiros também do Fábio, partindo para o desconhecido, deixando seus amores
e afetos.
Como disse são muitas rotas e leituras possíveis de se navegar,
adentrar e sobrevoar também pelos olhares do Rick e do Fábio em suas obras que
aqui não consegui citar ou descrever, mas que merecem ser sentidas. Me retive em apenas descrever um pouco das
minhas percepções sobre este trabalho como um todo, a residência, a exposição,
as pessoas e tudo que isso provocou em mim e que ainda vão reverberar na minha
vida, no projeto Almofadinhas e no meu trabalho como um todo.








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