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“MON AMOUR EST VIOLENT – MA VIOLENCE EST D’AIMER” - (Texto sobre residência artística em Paris - Agosto/2017)




MEU AMOR É VIOLENTO – MINHA VIOLÊNCIA É AMAR

                                                                                                          
A palavra clichê tem sua origem etmologica no francês cliché. Ela se refere a uma chapa metálica que traz gravada em relevo uma imagem destinada a ser reproduzida para impressão de imagens e textos por meio de prensa tipográfica. Já no sentido figurado é uma ideia já muito batida, uma fórmula muito repetida de falar ou escrever.

Foi durante o processo na residência artística na Galeria Alma Espace d’Art que essa palavra ficou rondando minha cabeça o tempo todo. A sugestão para o trabalho, por parte da curadoria, seria trabalhar os conceitos de amor e violência.  Dois assuntos que sempre caminharam juntos no meu trabalho. E a repetição dos mesmos sempre vão soar como meros clichês. O que procuro reproduzir em imagens no melhor sentido da palavra.

Já havia levado comigo alguns tecidos desenhados com figuras masculinas. Optei então por trabalhar dois destes, por questão de tempo para a produção e também por que o número dois se encaixava melhor na proposta. Um duplo, um dípitico, um casal? Contrariando a ideia geral de diptico onde duas obras são na verdade um, estes dois podem ser seres independentes ou em algum momento separados por acasos da vida.

O clichê já vinha sendo parte de minhas produções dos últimos tempos, devido à pesquisa em torno da tatuagem como alegoria da dor, assim como o bordado. E para estes dois trabalhos eu teria que descobrir como preencher os corpos do então “casal”. Como parte da residência os passeios e visitas me ajudaram muito e uma delas à região de lojas de tecidos e aviamentos em Montmartre, encontro os clichês que precisava, os patches, ou apliques, em português. Figuras bordadas por máquinas industriais para serem aplicadas em roupas, bolsas, bonés.  Eles tem uma relação direta com os desenhos de tatuagens, no estilo old school: caveira, rosas, âncora, maçãs mordidas, dragão chinês, máquina de costura, tênis, torre Eiffel, estrelas, arabescos dourados.  É nessa variedade de patches que vou me encontrar, usando esse elemento pela primeira vez nos trabalhos, enfatizando o conflito entre o artesanal, o industrial e o artístico.

Um tule cheio de estrelinhas estampadas, quase que bordadas, foi outro material que achei e me apaixonei. Ainda não tinha experimentado tal suporte, apesar da idéia, sempre ter me seduzido. Já tinha visto outros artistas que utilizaram o tule para o bordado. Não sabia como até então introduzi-lo na minha obra. A sua incrível transparência me seduziu, pois havia uma proposição de voltar a trabalhar camadas, planos diferentes soltos no espaço. Essa montagem ainda rondava a cabeça. Porque não experimentar?  Posso dizer que gostei muito do resultado de bordar sobre o tule, sendo de uma facilidade ímpar para como bordo. A agulha ia direto percorrendo os furos do tule formando o meu desenho prévio, proporcionando ainda mais o gestual do desenho no resultado. Mais do que os outros quando bordo em superfícies mais fechadas.

O restante do trabalho foi então buscar as imagens, algumas que trouxe comigo, outras que acabaram acontecendo aqui. Aos poucos fui colocando muito da vivência, dos lugares que visitei, do que observei da cidade, da simbologia da arte em si. Não tinha como as visitas aos Museus e as grandes obras não me influenciarem e também as descobertas de artistas que desconhecia. Um deles incorporado ao trabalho foi um São Sebastião vestido de marinheiro sem calças, pintado em 1934 pelo pintor francês  Alfred Courmes que encontrei no acervo do Pompidou. Uma pintura bem contemporânea para época que foi produzida, assim como o restante de suas obras  que pesquisei posteriormente, com bastantes referências simbólicas e homoeróticas. O marinheiro é uma das figuras clichês que por vezes que trabalho, e que também está ligado ao imaginário francês. Podemos lembrar aqui do filme Querelle de 1982, do diretor Rainner Werner Fassbinder, que é baseado em uma obra do escritor  francês Jean Genet. História cheia  de marginalidade, desejo e violência, no litoral da frança. O curioso é que levei um outro livro de Genet pra reler, o Diário de um Ladrão, e que também me auxiliou nessas referências para o trabalho, pois também é permeada dos mesmos conceitos, além de em alguma passagens me fazer construir imageticamente as composições que precisava. Se a ideia de um crime é o ponto inicial para o conceito da exposição em Setemro, então Jean Genet tinha as narrativas de que precisava.

A partir dessa figura de um marinheiro São Sebastião o restante foi sendo pensado em comunhão com as figuras do casal, ambos em posição de êxtase e dor. Daí surgiram anjos, cupidos, a flechá-las. A flecha é outros dos meu queridos clichês. Sagitariano como sou busquei nas pinturas que vi nos museus que visitei, os simbolismos que sempre me atraíram e me formaram na História da Arte. A minha predileção por temas milotólogicos e religiosos em tempos de estudante de artes voltaram à tona. E vou beber dessa fonte me inspirando em Gustave Moreau, Odilon Redon, nos renascentistas do Louvre,  e nas esculutras de Rodin e Antoine Bourdelle, assim como as grego-romanas e neoclássicas. Além da mitologia, a questão do corpo, da representação do corpo de forma dramática em virilidade. A matéria bruta da pedra ou do bronze traz isso, um quase gozo. Como resistir a um livro no Museu d’Orsay sobre a representação do Masculino na Arte do séc XIX aos dias atuais? É nele que me lembro de outra referência artística, um duo francês que também bebe da fonte dos temas clássicos para construir uma poética homoerótica contemporânea: Pierre e Gilles e com suas fotografias pictóricas. Ao passo que ver David Hockney no Pompidou com seus rapazes nus e piscinas também se torna um gatilho de sensações.

Sobre os corpos dos meus mártires vou desenhando um mapa de afetividades. Da visita à Basílica de “Sacre Couer”, sai meu maior clichê. Flamejante e multifacetado pela técnica do vitral, meu coração se torna remendado, bordado em dourado. Nesse momento é bom  falar sobre cores. O dourado é usado em outras figuras ou nos patches. São como alguns detalhes da arquitetura ornamental de Paris, puro Rococó ou um pouco de Barroco Mineiro das minhas veias. As outras cores também serão clichês no azul e vermelho da França. O suporte já é branco. Há o preto que desenha dentre outras figuras os corvos que cruzaram meu caminho. Figura polêmica na representação das artes, morte ou sorte. Também há vinho e rosa numa conversa com o vermelho para dizer sobre amor e sangue.  Saint Michel, um anjo vingador, também está presente matando o demônio. Há uma fonte belíssima, onde perto eu vivia.

Prendo com alfinetes as entretelas de tecido nas tiras compridas do tule estrelado. Os alfinetes que unem, mas ferem. São como flechas pra mim. Se torna mais preciso que meus rapazes ficarão suspensos no ar e as figuras ora bordadas neles, ora nos tules, flutuam entrando e saindo de seus corpos. A sensação de desenhos no ar.  
O da direita seria mais  a violência, mas também haveria amor. Um navalha está prestes a cortar seu pescoço. O Barbeiro de Sevilha passou por aqui. Figaro. O jovem rei envenenado deixa a maçã cair encanto alguém tenta captura um galo azul. Lembranças de uma monarquia imponente. Um homem com um facão na mão. Bombas caem do céu, assim como alguém desce ao inferno. Uma guerra de sentimentos no momento da decapitação. A música não só ensurdece como cega para o envolvimento ao redor. “Mon amour est violent”. Esse é o título da primeira obra.
O da esquerda é puro vermelho. Burlesco como Moulin Rouge. Nasce uma rosa no seu olho. É puro amor, mas que também se fere. Repito que os cupidos e o arqueiro de Bourdelle o alvejam. Algo está pra explodir. Um cavalinho de carrossel detona a granada. Nos protejemos com máscaras ou gritamos de horror e prazer. Um beijo transmite paz, mesmo com armas ao redor. No seu braço ele tatuou o título da segunda obra “Ma violence est d’aimer.”

Rodrigo Mogiz – Paris - 2017


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